SOMBRA E LUZ
Naquele lugar deserto e escuro, onde o vento soprava gelado e impiedoso parecia não haver vida ali, apenas frio e desolação. Nem um ruído de alguma casa ou vozes ao longe, ou um som de algum animal esgueirando-se pelo frio, nada, nem um som de alento, nem um som de vida. Os únicos movimentos eram o balanço do vento nos arbustos e os grandes olhos do menino atrás da pilha de caixas de madeira no fim da rua. Aqueles olhos castanhos escondidos embaixo de caixas e papelões vasculhavam a rua, atrás de um sinal de que não estava totalmente sozinho no mundo, mas à noite era longa e aqueles olhos cansados não demorariam a se fechar.
A noite foi indo embora e dando lugar a luz do dia, o vento foi soprar para outro lugar distante dali e o sol foi chegando de mansinho com o seu calor.
Não demorou para os grandes olhos castanhos do menino despertarem e perceberem que começara mais um dia naquela pequena
cidade do interior.
Ele não tinha mais que onze anos, cabelos lisos e escuros como nanquim, pele clara, não muito alto nem baixo, pode se dizer mediano para sua idade, andava sempre de botinas, uma delas furada no dedo, calças com suspensório e muitos bolsos, cheios não se sabe do que? E um casaco que aparentava não ser dele pelo seu tamanho. Assim era “Castanho”, como os moradores da cidadezinha o chamavam por causa de seus grandes olhos, ninguém sabia seu nome ou de onde ele tinha surgido, só sabiam que ele vivia por aqui e ali já há algum tempo, viam ele sempre só, não falavam com ele e na verdade não se importavam. Naquela fria cidade ao norte os moradores eram sisudos, desconfiados e brutos, parecia que o frio assim como fazia com que se recolhessem também fechava seus corações.
Não faziam festas nem brincadeiras, apenas trabalhavam e voltavam para suas casas aquecidas com muita lenha. Muitas cabanas eram construídas com porões embaixo e Castanho aproveitava para se esconder das pessoas e do frio. Era muito retraído, vivia um pouco em cada lugar, nos prédios e fábricas abandonados, nos galpões das casas do campo, em todo lugar afastado que houvesse. Conhecia todos os animais da cidade e era com eles que conversava as poucas vezes que falava, eles não mais o estranhavam, nem os cachorros das casas avançavam nele ou latiam avisando seus donos de sua chegada, ele sempre fazia um carinho ou os convidava com que estava comendo, para os cavalos trazia maçãs ou cenouras, de algum pomar ou horta que passasse pelo caminho, para os cães trazia ossos e pães em seus bolsos, assim, onde fosse descansar não era incomodado, até lhe aqueciam, na verdade, eram seus únicos amigos. Por vezes, sentia-se muito só e não raras vezes lágrimas rolavam em seu rosto.
Para saciar sua fome pegava alguma comida escondido ou trabalhava executando pequenos serviços para pessoas de idade, como cortar lenha, carregar compras ou tratar de animais em troca de comida ou algumas poucas moedas, mas tudo sem proximidade com ninguém, apenas ordens e algum pagamento, ninguém lhe dirigia uma palavra amiga ou lhe dava um sorriso.
Era um menino jogado no mundo, à sua própria sorte, sem qualquer laço de família ou amigos, completamente sozinho, abandonado, renegado. Não tinha o hábito de sorrir, nem tinha motivos para isso, seus únicos momentos de alegria era quando brincava com os cães. Observava as pessoas de longe, gostava disso, ficava imaginando aquelas pessoas diferentes de como elas eram, via garotos da sua idade indo em direção a escola, eles sorriam e ele não entendia porque e os observava, suas roupas, aquelas bolsas pesadas que carregavam, pensava, o que será que carregavam? Será que eram ossos e pães? Não devia ser, pois as bolsas voltavam sempre cheias! Puxa, eles eram tão limpos e arrumadinhos! Tão diferentes dele, pensava. De repente não queria mais observar, talvez por perceber que nunca seria como eles, virava as costas e seguia seu caminho. Não entendia muitas coisas e não pensava no futuro, pois tinha preocupações mais importantes como comer e não sentir frio! Assim vivia aquele menino solitário e desesperançoso naquele mundo triste.
O vento já não soprava tão frio por ali e o sol chegava para ajudar. A primavera finalmente estava chegando. Com ela chegou na cidade uma nova família causando assim um certo alvoroço, como em todo lugar pequeno quando chega alguém novo. E como todo garoto, Castanho também era curioso, esgueirou-se por de trás dos muros para ver quem havia chegado.
Foi quando viu de relance passar um carro do qual pela janela voavam compridos cabelos dourados, indo em direção a casa de campo perto da fábrica. Aquilo chamou sua atenção, não resistiu e seguiu o carro disfarçadamente. Pelo caminho ouvia os comentários dos moradores, da nova família que chegara, mas ele tinha que ver de perto.
O carro chegou em frente ao antigo casarão de dois pisos, já estava há muito tempo fechado, no lado Leste da localidade, quando parou, o menino já estava atrás de uma árvore observando. Um homem desceu primeiro, logo uma mulher e uma senhora, todos bem vestidos, pensou ele:-Deve ser alguém importante! Mas e aqueles cabelos?
De repente, ele viu, descendo do carro uma menina de longos cabelos dourados que brilhavam como raios de sol e aquele brilho nunca visto, ofuscou seus grandes olhos e seus pensamentos. Ficou paralisado, enquanto ela caminhava em volta do carro olhando sua nova morada. Seu vestido comprido ondulava com seus delicados passos, seus cabelos serpenteavam por seus braços, sua pele branca como leite e seus olhos de um verde tão claro! Era uma visão! Jamais ele tinha visto algo parecido, não conseguia mover um músculo, nem sentia se respirava. Era como se o tempo tivesse parado. -Meu Deus! Estou vendo um anjo, pensava.
A família pegou sua bagagem e entrou na casa e Castanho viu desaparecer pela porta aquela luz de sol! Como se despertasse bruscamente de um sonho, ele vagou de volta caminhando atordoado para lugar nenhum, com a cabeça perturbada, sem sentir os pés no chão, sem nada entender, pensando, tentando compreender o que tinha visto, mas aquela visão não saía de sua mente. Amanhã voltaria àquele lugar que tanto mexeu com seus sentidos e tentaria ver novamente aquele brilho de sol!
Nos primeiros raios de sol, tudo criava vida, por todos os lados se ouviam os pássaros a cantar, os cavalos já corriam nos campos para espantarem a preguiça, as vacas berravam esperando a ordenha e principalmente sua comida, as galinhas ciscavam no terreiro, os cachorros espreguiçavam suas patas começando a guarda do dia e, Castanho já começava suas tarefas rapidamente, para ficar livre logo e voltar àquela casa.
Estranhamente para ele, o dia parecia tão bonito, ventava, mas o frio já não lhe castigava como dantes, sentia o cheiro das flores que começavam a desabrochar pelo caminho, sentia-se diferente, leve e ao mesmo tempo sentia uma ansiedade que o fazia correr sem nem perceber.
Castanho passou horas ao redor da casa escondido, esperando ver novamente aquele ser que despertou tanto o seu interesse, lembrava da sua chegada, ela caminhando docemente pela grama, aqueles lindos cabelos dourados balançando pelo seu corpo, parecia que ela deslizava como um cisne na água; em meio a seus devaneios pensava: - Será que tinha sonhado isso? Não poderia ser, ele a tinha visto, sim! Seu coração disparou como um raio quando ouviu a porta se abrir, para sua tristeza dela saiu o homem, entrou no carro e seguiu para a cidade, em seguida ela apareceu! Ele não sabia o que sentia, seus grandes olhos a seguiam pelo jardim completamente hipnotizado, seu coração batia tão forte que parecia que ia sair pela boca, suas mãos suavam, tinha vontade de correr mas nem pensava em sair do lugar, ficou ali completamente imóvel somente a olhar enquanto ela caminhava ao redor da casa. Os raios de sol penetravam por entre as árvores tocando gentilmente naquela face, fazendo brilhar ainda mais seus cabelos dourados, era como ver um raio de luz que se movia alegremente para lá e para cá. Ela tinha um jeito diferente de olhar, olhava tudo com doçura, sorria e cantarolava, girando e dançando pelo jardim, parecia tão alegre, e por quê? Pensava ele. Que ser tão esplêndido era ela, aquela voz cantando aquela canção tão bonita! Nunca ouvira nada assim, suas pequenas mãos se entrelaçavam e seus braços abriam-se para o céu jogando seus cabelos para trás, numa dança solitária, de tanta pureza, tão suave, tão belo! Realmente ela não era daquele lugar tão ríspido e triste. Não queria que aquele momento terminasse, sentia-se encantado e acabou voltando mais confuso que antes.
O menino passou o resto do dia disperso, dormiu junto com seus habituais companheiros, os cães, cobertos por velhos cobertores em um porão qualquer, no seu pensamento, perguntas sem resposta giravam deixando-o tonto. Precisava vê-la! Saber seu nome! Quem era ela? O que fazia lá? Ficaria, não iria embora?
Todos os dias as árvores do bosque o escondiam somente para vê-la e todos os dias voltava mais inebriado, descobriu ouvindo aqui e ali algumas informações daquela família nova que chegara, mas não era suficiente, precisava mais. Percebeu que embora ela parecia sempre tão alegre ela era só, às vezes a ouvia falando sozinha pelo jardim, sentia uma vontade muito grande de se aproximar dela mas seu medo o impedia, e mais, o que ela poderia pensar? Poderia se assustar, afinal ele tinha consciência de que era muito diferente dela, não tinha casa nem família, vivia por aí, sozinho, sujo e maltrapilho, se tivesse coragem de falar com ela, nem saberia o que dizer e provavelmente ela sairia correndo.
Os dias passavam rapidamente e o menino não prestava atenção em mais nada, não observava mais os outros meninos indo para a escola, fazia suas tarefas distraidamente, parecia mais calado que antes, só pensava e pensava: - Quero vê-la!
A primavera enfeitava o lugar, as flores surgiam em todos os cantos, uma mais bela que a outra, os dias tornaram-se maiores e mais quentes e o menino dos grandes olhos castanhos continuava sozinho, pensando. Um dia voltando de uma colheita que fora ajudar para ganhar alguns trocados, escutou uns ganidos estranhos ao longe, foi se aproximando do som que escutara e chegou atrás de um galpão velho, encontrou escondidos embaixo de uma carroça dois filhotinhos de uma cachorra que jazia morta por sobre a palha. Ela tinha um corte profundo no abdômen e os filhotes estavam em bom estado, eram malhados de preto e branco, Castanho não sabia se tinham alguma raça definida, mas eram bem bonitos e estranhamente pareciam com ele, famintos e sozinhos! Não pensou duas vezes, pegou os dois no colo e os levou consigo. Precisava alimentá-los, mas como? Pegou uma tigela velha e entrou no curral, escondido, para ordenhar uma vaca, quase levou um tiro, na corrida perdeu quase metade da tigela, mas foi o suficiente para os filhotes. Lamberam a tigela desesperadamente até não sobrar uma gota sequer, suas barriguinhas pareciam que iam explodir, Castanho então os acomodou em uma cama improvisada como a sua, em meio a trapos e palha e adormeceu junto aos filhotes.
Quando despertou o menino voltou seu pensamento a ela, seu raio de sol! Olhando para os filhotes que se espreguiçavam e gemiam ao acordar, sentiu-se comovido e até sorriu sem jeito, um sorriso meio torto, eles eram muito engraçadinhos, mesmo. Foi quando estacou com a ideia que surgia em sua mente! Ela também era só, um filhote poderia fazê-la mais feliz! Pensou Castanho. Olhou com atenção para os dois, um ele levaria para ela, o outro ficaria com ele. Os dois eram pouco peludos, orelhas caídas, um tinha mais manchas brancas e o outro mais pretas, ficou com o de mais manchas pretas, este possuía uma particularidade, as duas patas da frente eram até a metade igualmente brancas, chamou-o assim de “Duas Meias”, o outro com maiores manchas brancas possuía o focinho e as quatro patas pretas, como quatro botinhas, pensou!
Pegou o filhote e saiu correndo pelo bosque em direção à casa dela. Estava muito ansioso e precisava planejar como faria para que ela pegasse o seu presente, conhecia a rotina da casa de tanto a observar, sabia quando ela sairia para o pátio e não podia se atrasar, muito menos ser visto! Chegou ao redor da casa ensopado de suor, se aproximou o máximo que pode, soltou com cuidado o cachorrinho na grama do jardim e voltou rapidamente para a segurança das árvores. Ficou a esperar. O tempo passava e ela não aparecia, necessitava muito em vê-la, ver seu sorriso tão doce, escutar sua voz, precisava saber seu nome, já estava angustiado e a cada minuto mais frustrado. Será que justamente hoje ela não vai aparecer! Pensou. Não sabia o que fazer, quando de repente o filhote sentindo-se sozinho começou a choramingar.
Logo a porta abriu-se e saiu lá de dentro... ela, com seu jeito
fascinante, o sol a tocava e tudo era luz e confusão para os grandes olhos do menino.
Ela olhou em volta procurando de onde vinha aquele chorinho e o avistou, foi correndo em direção ao filhote, exultando de emoção e alegria, o pegou no colo sorrindo e o acariciou, tão carinhosamente de um jeito que Castanho jamais havia visto! Encantado com a cena o menino viu ela retornar numa intensa excitação para a casa! Tamanha era sua emoção ao ver esta cena, que soltou seu corpo num grande suspiro por sobre a árvore! Sentia-se bem, estranhamente muito bem! Com um sorriso no rosto, voltou para cuidar de seu filhote Duas Meias, pois o “Botinhas” já estava em ótimas mãos.
Todos os dias Castanho voltava àquela casa, ficava escondido olhando encantado! Sorria-se todo ao ver como ela brincava com o cachorrinho, parecia tão feliz, dançava em volta dele e ele a perseguia correndo de um lado para outro abanando o rabinho, ela conversava todo o tempo com ele e o acarinhava, era difícil dizer qual dos dois era mais feliz, o cachorrinho ou a menina! Certamente os dois, mas tinha alguém que vivia com a tristeza como companheira e agora sentia-se com tamanha alegria, sorrindo cada vez que a via, sua vida já não era mais a mesma desde que ela surgira em seu mundo.
Começou a ter um companheiro para suas andanças, o filhote agora andava sempre ao seu lado, Duas Meias seguia Castanho por todos os lugares, era esperto, curioso e muito brincalhão, não dava sossego para o menino, tudo para ele era festa!
- Desse jeito você vai nos meter em encrenca, Duas Meias, pare com isso! Dizia o menino.
Mas, ele sossegava somente depois de esgotar toda a sua energia e então tirava um belo cochilo! O menino aproveitava esse momento para fugir do cachorrinho, mas sempre ao voltar escutava pelo caminho um forte choramingo de cachorrinho, era “Duas Meias” à sua procura! Quando lhe enxergava saía em disparada abanando o rabinho e pulando no menino que se abaixava e lhe acariciava a cabeça pegando-o no colo e assim recebia uma boa dose de lambidas eufóricas do filhote!
Agora a vida do menino era assim, existia alegria em seu mundo!
Na manhã seguinte Castanho saiu apressadamente para ver a menina esquecendo-se de Duas Meias, que sem ele perceber o seguiu. Estava no seu seguro esconderijo, as árvores, observando a menina brincar com seu cachorrinho, ela corria de um lado para o outro e o cachorrinho a acompanhava, eram risos e latidos se espalhando pelo jardim, Castanho sorria divertido atrás da árvore, quando de repente sua expressão mudou drasticamente quando viu passar à sua frente Duas Meias, bem tranquilo, cheirando o chão, como se procurasse alguma coisa! Castanho apavorado, sussurando o chamou! Ele parou, olhou para o menino e seguiu em frente sem dar a mínima bola!
-Duas Meiiiaaas! Volta aqui!!! Sussurou o mais alto que pode, Castanho!
Mas de nada adiantou, o cachorrinho não dava a menor atenção ao menino e seguia curioso em direção a casa! Ele via o filhote se aproximando da menina e não podia fazer nada! Tinha vontade de sair correndo, mas não conseguia sair do lugar!
- Cachorrinho desgraçado! Sussurava atrás da árvore.
A menina percebeu que seu cachorrinho estava se afastando e o chamou:
- Sr. Botinhas! Onde pensa que vai?
Ao ouvir isso, Castanho ficou boquiaberto!
-Ela pensou a mesma coisa que eu?
Os filhotes foram em direção um do outro, se encontraram com tamanha euforia, saltavam, giravam em torno um do outro, eram lambidas pra todo o lado!
A menina chegou e viu aquela cena, parou e percebeu que parecia que se conheciam, era um reencontro! Aproximou-se dos filhotes abaixando-se perto deles, chamou por Sr. Botinhas, que veio ao seu encontro balançando o rabinho todo faceiro! Acaricio-lhe a cabecinha e voltando-se para o outro filhote o chamou:
-Aqui! Vem cachorrinho, vem! Ele veio se balançando todo para a
menina, que o acariciou. Ela olhava para os dois e via que se pareciam um com o outro, as cores eram diferentes, mas os dois possuíam as mesmas características, manchas, jeito, tamanho, olhos, orelhinhas, certamente eram irmãos, pensou.
O menino escondido, continuava completamente paralisado, sem saber o que fazer, só observava. Seus pensamentos giravam em sua cabeça tentando achar uma saída para aquela situação, mas não achava um jeito!
- Esse Duas Meias só me arruma encrenca! O que eu faço agora? Pensava.
A menina olhou em volta e nada encontrando pegou os dois filhotes e foi em direção a casa!
Castanho gelou ao ver que ela levava embora Duas Meias com ela. Não sabia o que fazia, deixaria, mesmo ela, aquele brilho de sol, levar embora para longe dele seu companheiro? Se afeiçoara tanto aquele bichinho, permitiria que isso acontecesse? Era isso ou ele teria que se expor! Que deveria fazer?
Num ímpeto ou num momento de loucura, tremendo por dentro e por fora Castanho saltou de trás daquela árvore e gritou:
- Hei! Espere!
A menina virou-se assustada quando o escutou, jogando seus cabelos para trás, e sem dizer palavra ficou parada a lhe olhar.
Castanho no mesmo instante se arrependeu e sentiu vontade de voltar correndo para seu esconderijo, mas já era tarde, gaguejando um pouco, tremendo outro, teve que seguir adiante! Tirando coragem não sei de onde falou com ela:
De...des...culpe! Não quis assustá-la!
- Olá! Disse a menina!
-Olá! Acho que esse filhote é meu! Falou sem jeito o menino.
Os dois se olharam, ela olhou para o cachorrinho e sorrindo para o menino falou:
-Ele é uma gracinha!
Depois daquele sorriso, seu coração acalmou, suas pernas estavam mais firmes!
-Também é muito sem vergonha! Disse o menino, já sentindo-se melhor.
- Como se chama? Perguntou ela.
- Duas Meias!! Respondeu atropelando as palavras.
Ela sorriu e disse:
- Acho que queria saber o seu nome?
O menino corou, deu um sorrizinho amarelo e respondeu;
- Castanho! Me chamo Castanho! Mas, todo mundo me chama de Castanho!
- Sei... Interessante seu nome Castanho! Me chamo Clara!
Ouvindo isso com aquela voz tão doce Castanho ficou inebriado! Como era bom falar com ela, saber seu nome! Pensava: Clara, que lindo nome! Sem dar-se conta havia pensado alto, só entendeu isso quando ouviu um:
-Obrigada!
Desconcertado, mudou de assunto.
-Você vai ficar por aqui? Perguntou para ela.
-Meu pai veio assumir a fábrica, acho que vamos ficar um bom tempo.
Os dois sentaram-se na grama com os cachorrinhos e como já se conhecessem ficaram a conversar! Um queria saber do outro, parecia que ela não se importava com a aparência de Castanho e olhando dentro dos seus grandes olhos castanhos, sorria para ele! O menino nunca tinha visto tão de perto tamanha beleza e doçura, estava completamente fascinado, vendo-a tão próxima, além dos seus cabelos dourados, notou seus olhos como eram belos, de um verde tão lindo! Sorria e falava com ela como nunca havia falado com ninguém, era como se fosse outro menino! Ela passava tanta alegria nos seus gestos e palavras, brincava com os cachorrinhos que não saíam da volta dos dois, levantava-se e corria junto dos filhotes, voltava a sentar-se no chão ao seu lado, e Castanho não sabia o que fazer, ficava a olhá-la e sorrir.
Em meio a tanta diversão, ela olhou-o nos olhos e perguntou:
- Foi você, não foi?
Castanho assustado, engoliu em seco e perguntou:
- Fui eu o quê?
-Foi você que trouxe o Sr. Botinhas, não foi?
Castanho tinha medo de responder, pois se dissesse que sim, teria que contar o resto, contar que a observava escondido atrás das árvores, que era um ninguém, que não tinha nada nem ninguém nesse mundo, apenas seu companheiro Duas Meias e ela, Clara, a quem tanto gostava! Embora temendo que ela se afastasse, Castanho era corajoso, não queria perdê-la, mas olhando dentro daqueles olhos verdes claros, sentia-se tão bem que não conseguiu resistir e contou:
- Sim, fui eu que o trouxe! Queria que fosse mais feliz! Parecia solitária! E abaixando a cabeça se desculpou!
A menina tocou em seu rosto levemente e levantando sua cabeça o olhou com tamanha ternura, que veio à tona toda a sua tristeza e seus grandes olhos castanhos encheram-se de lágrimas, sem poder evitar elas rolaram pelo seu rosto, envergonhado levantou-se para ir embora. Ela percebeu que ele passava por muitas dificuldades. Rapidamente tocou seu braço e pediu gentilmente para que não fosse. O menino cansado de sofrer deixou-se cair no chão novamente ao seu lado. Ela sorriu docemente para ele e ficou a olhar em seus grandes olhos sem nada dizer, esperando, somente para lhe escutar. Castanho a compreendeu e sentiu uma grande necessidade de desabafar, parecia que tudo lhe pesava no peito! Começou então a contar sua história. Não sabia por quê, mas confiava nela, contou tudo desde o início, das memórias mais antigas, as que ele não sabia se eram lembranças reais ou apenas sua imaginação tentando enganar seus momentos de tamanha solidão, a sua vida, sua fome, sua miséria, sua solidão, seus medos, todas suas sombras vieram à tona, sem conseguir contê-las o menino, despejou-as todas para fora do seu peito. Quando terminou os dois estavam chorando abraçados!
Que ser era este que fazia com que se sentisse dessa forma? Jamais falara assim com ninguém! Pensava o menino.
Depois de tanta emoção Castanho falou da luz que entrara na sua vida e do choro passaram a risos. Clara com toda a sua alegria, divertia-se a ouvir Castanho contar como ela surgira para ele, ria dele contando dos seus cabelos dourados voando no carro, na sua chegada, divertiram-se os dois e a enxurrada de lágrimas levou embora toda a tristeza, agora existia lugar somente para a alegria. Castanho senti-se leve, bem, feliz como nunca havia se sentido na sua vida! Parecia que um peso havia saído de dentro de si, olhava para Clara e sentia que nunca mais sentiria solidão em sua vida! Ela era seu anjo da guarda! Ela era sua luz na escuridão! Agora sim, o menino de grandes olhos castanhos tinha motivos para sorrir!
A menina, tão diferente das pessoas daquele lugar, sentia uma inexplicável confiança naquele menino, um desconhecido o qual agora conhecia profundamente como se conhecesse a si mesma, jamais alguém havia sido tão sincero com ela, jamais havia visto tanto sofrimento, nunca sentiu ou sequer imaginou tamanha dor! Aquele menino de coração tão grande, em meio a tanta adversidade da vida não deixou-se corromper e tornou-se uma pessoa do bem.
Para Clara, Castanho era como um herói, se tornara mais que um amigo, ele completara seu ser, jamais esqueceria daquele menino!
Nascia ali, naquele lugar distante, um sentimento tão puro e tão forte, uma amizade tão sólida, tão grande, inexplicável... a mais linda que já vi.
Adriana Ianzer de Oliveira