terça-feira, 22 de março de 2016

Uma Comentarista de Futebol

                                             
                              ''Uma'' Comentarista de Futebol

Confesso que não entendia nada, nadica de nada de futebol e continuo não entendendo, mesmo! Não gostava nem de assistir.  Claro, com exceção dos grenais que já vinham com uma certa carga  negativa, ''colorado sofredor'', e os jogos da seleção! Bom, seleção, aí a coisa mudava de figura, era como uma obrigação!
Que tipo de brasileira seria eu, se não assistisse a Seleção Brasileira? Inadmissível! Neste país? Seria crucificada! Pior, diriam que mulher não entende nada de futebol, mesmo! Uma completa indignação ouvir isso, seria como pedir briga, mas orgulho à parte, temos que admitir meninas, eles tem uma ''certa'' razão, mulher entende nada ou muito pouco do assunto. Isso não quer dizer que nós mulheres não possamos jogar futebol e mais ainda, jogar bem! Claro, é bem verdade também, que existem as estudiosas na área, que comentam perfeita e profissionalmente bem o assunto, o que não é o meu caso! Em nenhum dos aspectos, certo?
O que não podemos esquecer é que o futebol faz parte da natureza masculina, está entranhado na alma!
Certo que, também tem relação com o processo cultural, num país onde as pessoas costumam falar que se respira futebol, tudo é possível!
Os bebês já nascem com o seu time do coração, podem ainda não ter o nome escolhido, mas o time certamente já  está, inclusive já vem com a roupinha, uma graça de uniforme, de dar inveja a Nike e  Adidas. Fardamento completo da cabeça aos pezinhos, até com as chuteiras, aquelas fofuras de pantufinhas que o papai ou a danada da avó, ''geralmente a sogra'' escolheu! 
Um verdadeiro complô! Ninguém espera os pequenos crescerem e escolherem por sua conta e ''risco'' seu time, já nascem vencedores ou sofredores, dependendo do campeonato! 
Na fase escolar, até se admite não ser bom em matemática, português ou história, mas se não tiver aptidão com a bola, já era! Perna-de-pau é o mínimo que vão escutar! Pobrezinhos dos nerds!
Quando jovens, estão com a bola toda! Físico em forma, altas jogadas, dribles impressionantes e gols de infartar qualquer cardíaco fanático! Evidentemente prestamos mais atenção ao porte atlético dos jogadores do que à parte técnica, mas, sem dúvida ela é muito importante.
A questão é que eles realmente vivem o futebol de uma forma incompreensível para nós.
Sempre pensei que fosse um jogo que se baseava em quem joga melhor vence! Só que não é bem assim que acontece, as vezes o que jogou pior sai vitorioso, é só fazer gols, e aí? Que porcaria é esta? Pois é, acontece.
Eu, assistia com aquele olhar de quem vê todos os defeitos possíveis na partida, quero dizer, sobrava reclamação para todo mundo, jogadores, juíz, bandeirinhas, técnico, se bobeava sobrava até para o gandula. Era xingamento para cá e para lá, durava certinho os noventa minutos ou o quanto durasse minha paciência, se precisasse tinha também para os acréscimos, pobre de quem ficava ao meu lado durante a partida!
Normal, né! Afinal, quem nunca xingou, esbravejou, gritou,
saltou do sofá mais rápido que um gato num momento tenso do jogo?
Mas, o que mais me surpreendeu foi que começei a ver o futebol de uma forma diferente da que via antes. Na minha ignorância havia somente um bando de homens suados correndo de um lado para outro atrás de uma bola, e pensava eu, que devido a todo treinamento, técnica  e ''bons'' salários recebidos eram obrigados a fazer o melhor, afinal o que havia de errado com esses jogadores?
Foi então que ouvi uma frase que fez-me pensar mais sobre o assunto e que gostei muito de ouvir:
O futebol é um jogo muito emocional! É psicológico.
Agora estava falando minha língua. Emocional! Psicológico! Lindas palavras! Isso sim, tem haver comigo!
Então comecei a interessar-me por esse mundo estranho!    Prestei atenção e sai do meu pedestal de criticidade, olhei deixando-me realmente enxergar ao meu entorno, ouvi  e percebi o quanto tudo era muito maior do que eu supunha!
Nas minhas descobertas percebi muitas complicações que fazem uma jogo ser o que é: vários alas, 1º homem, 2º homem, 3º homem de meio campo! O que quer dizer isso, afinal? Jogar mais para a frente, mais para atrás, ligação entre um e outro. E não para por aí, ainda tem graus de exigência gigantescos, enorme concentração, muita habilidade, força de vontade, extremo contato físico, ou seja, “apanhar” direto, segurança física e psicológica, preparo físico, os músculos sempre no limite, disciplina, cooperação, parceria, respeito, dedicação, criatividade, raciocínio, velocidade, responsabilidade e muito mais!
É, vida de atleta não é tão fácil assim, não!
Na minha nova percepção, enxerguei como é difícil chutar uma bola em curva, exigindo do jogador uma grande habilidade! Isso, definitivamente não é para qualquer um! De como os jogadores   necessitam estar bem emocionalmente para realizarem uma boa partida! De como é essencial que estejam seguros, bem organizados e distribuídos no campo conforme suas ''reais'' habilidades! O quanto é complicado para um juiz enxergar e  interpretar os jogadores em todos os seus movimentos durante a partida, principalmente quando ''todos eles'' depois de atacarem o adversário, levantam as mãos automaticamente sinalizando:
–                                                                                                                                                                                                                                                                        Não fui eu! Não fiz nada! De como é duro ser alvo de crítica o tempo todo por todo mundo, principalmente ''daqueles'' que nada entendem do assunto! Do quanto é preciso estar envolvido, amar e se dedicar ao que se está fazendo!
     Enfim, pude compreender tamanha paixão envolvida, sonhos, esperanças, superações, verdadeiras  batalhas por reconhecimento e títulos, provas na verdade, de que realizaram algo de valor, conquistaram a sua glória e também os nossos corações!        
     Vendo assim por esse lado, impossível não se apaixonar, não compreender e não participar de tamanha emoção!
        Puxa! Que universo é esse, desses meninos!                                                           
    Já nascem com a bola nos pés, vão crescendo mundo afora fazendo ela rolar com toda a graça e emoção, nesse drible de obstáculos no caminho,  a cada gol uma explosão de alegria, rolam a bola nos pés com maestria conduzindo a partida, e assim vão se  aventurando na vida.


                                                                      Adriana Ianzer de Oliveira

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